sábado, 8 de janeiro de 2011

Não estou no Facebook. Pobre de mim?

Também não tenho twitter – informação que deve interessar às milhares de pessoas que me seguem em três endereços meus “oficiais” no Twitter, que encontrei neste fim-de-semana, com a ajuda de uma colega aqui na redação, já que não tenho a menor intimidade com a “ferramenta de microblogs”. Meu número total de seguidores é 84.562 (e não estou nem somando as 168 pobres almas que se conectaram ao um endereço com meu nome, mas com a foto de um outro colega de profissão…). 84.562 pessoas que acham que estão, hum, conectadas comigo. Fico pensando…

Não tenho certeza de quantas pessoas estão sendo enganadas também com “minha” página no Facebook, pois tenho ainda menos intimidade com a chamada “rede social”. (Você, que pensa rápido, já percebeu que vou falar hoje sobre o filme com esse nome que estreou na última sexta-feira aqui no Brasil – já chego lá!). Não sei nem como entrar no Facebook – algo que não chega a ser um motivo de orgulho, mas, como você vai ver logo adiante, um pré-requisito para minha sanidade… E, só para terminar essa “tabulação abstrata”, já soube um dia, sempre por amigos, que no Orkut (alguém se lembra de Orkut?) eu tinha mais de uma página, cada uma com milhares de seguidores – nenhuma delas, oficial. Cheio de amigos esse Zeca Camargo, não? Pode apostar…

Certa vez soube de uma conhecida que, ao sair de uma festa, depois de ter feito uma nova amiga que, para manter contato, pediu o email dela, respondeu: “Eu não sou mulher de email, querida, eu sou mulher de CEP!”. Não vou tão longe assim, nem sou exatamente alguém avesso a novas tecnologias – quem acompanha este blog há tempos sabe bem disso. Mas nenhuma dessas ferramentas que citei acima, nem mesmo quando apareceram pela primeira vez, me entusiasmaram a ponto de eu querer me associar a elas. São várias as justificativas para essa minha atitude, hum, “anti-social”, mas para dar apenas uma (a mais rápida), eu diria que não tenho tempo para isso. Sério! Eu tenho só um número de telefone e um email – e isso já dá um trabalho louco para administrar.

A idéia de “estar conectado” usando um software desses sempre me pareceu, digamos, pleonástica, uma vez que meu próprio trabalho me coloca em contato com  dezenas – quando não centenas – de pessoas todos os dias (e não estou nem falando, claro, de telespectadores, uma vez que a contabilidade aí chega facilmente aos milhões, pelo menos aos domingos… mas eu divago…). No início desse “fenômeno comportamental”, quando muitas pessoas vinham me contar admiradas que haviam reencontrado conhecidos do passado, cheguei a fazer um exame de consciência: com quantas pessoas da minha infância ou tenra adolescência eu gostaria realmente de reconectar? Cheguei a uma lista pequena – apenas para descobrir que os nomes que incluí nelas eram de pessoas que, bem… eu ainda mantinha contato. Ou seja, se certas figuras ficaram para trás na minha história, talvez – talvez! – seja porque elas pararam de ter alguma coisa a ver com… a minha própria história. Por que deveria eu cutucar esse passado, esquecido por uma darwiniana seleção natural?

Ainda: para uma pessoa que tem boa parte da sua vida pública – por força do meu trabalho –, que sentido faz eu anunciar constantemente o que estou fazendo? Comunicar as minhas atividades banais – “peguei um táxi e o trânsito está infernal”, por exemplo – sempre me pereceu não apenas uma perda do meu tempo precioso, como também o da pessoa que pudesse eventualmente ler tal (des)informação. E, para finalizar, já me penalizo o suficiente quando fico longe de amigos queridos com os quais não consigo manter contato – um bom punhado de pessoas maravilhosas que me fazem feliz. Imagine então me comprometer com milhares de seres dependentes de um “tweet” ou de uma nova mensagem compartilhada no Facebook?

Não quero criticar você que “se encontrou”, ou pelo menos descobriu uma razão de viver depois que essas ferramentas passaram a fazer parte do nosso cotidiano – cada um sabe onde mora a felicidade… Mas tenho que dizer que estou bem feliz com as “redes sociais de verdade” que construí como um crochê tunisiano – e que gosto de usar como um cachecol, rente ao corpo. O que não me impediu que me divertir imensamente com novo filme de David Fincher, “A rede social”.

Fui vê-lo há algumas semanas, antes de estrear no Brasil, quando estava de passagem por Londres para entrevistar Sir Paul McCartney. Desde então, queria sempre escrever sobre ele, mas fui sendo, digamos, atropelado pelos acontecimentos do universo pop. E depois, quando surgiu um espaço, li um artigo sobre o filme que me deixou paralisado – tão bom, que me senti temporariamente incapaz de escrever qualquer coisa sobre o assunto. Um texto tão inteligente e sensacional, que dizia tudo que eu queria ter dito de maneira tão original, que eu quase desisti definitivamente de postar algo sobre o filme…

Mas sobrevivi a esse impasse e estou aqui para dizer que “A rede social” é sensacional. Nunca deixei de admirar Fincher – de “Se7en” a “Zodíaco” (mesmo o ambicioso “Benjamin Button” deixou-me no mínimo fascinado). Só o fato de saber que é ele quem vai assinar a primeira produção hollywoodiana da trilogia “Milênio” me enche de esperança. Mas ao filmar essa história de “criador e criatura” – respectivamente, Mark Zuckerberg e Facebook – ele se superou. Daquele início verborrágico – onde Jesse Eisenberg no papel principal, ao metralhar um dos discursos mais imbecis, arrogantes e lúcidos do cinema, prova que não só é o melhor ator da sua geração como é capaz de sequestrar a atenção mesmo do mais dispersos usuários do Facebook por mais do que apenas alguns segundos – até o inverossímil (ainda que redondo) desfecho patético para o bilionário mais jovem da história, Fincher mostra definitivamente que é capaz de dar um ritmo a uma produção de peso como poucos hoje no cinema. (Spielberg, talvez, fosse um nome que pudesse se igualar a ele, mas desde “Munique” tenho cá minhas dúvidas – mas eu divago novamente…).

Baseado na história “real” (reparou nas aspas?) da criação do Facebook – tirada do bom livro de Bem Merrich, “Bilionários por acaso” (editora Intrínseca) –, “A rede social” é tão mirabolante que mais de uma vez durante o filme, desencanei que era uma espécie de biografia e encarei o que via como um trabalho de ficção. O mérito é de Fincher sim, e é também do elenco (além de Eisenberg, Andrew Garfield, que já tinha elogiado em “Não me abandone jamais”, está excelente no papel do co-criador do Facebook, Eduardo Saverin, e vamos combinar que Justin Timberlake merece todas as boas críticas que vem recebendo por interpretar Sean Parker, o criador do Napster). Mas Aaron Sorkin, que assina o roteiro é o grande responsável por me fazer não querer perder sequer uma linha de diálogo durante duas horas contínuas.

Porém, os elogios que fiz até agora, ainda que bem honestos, limitam-se às características mais superficiais de “A rede social”. O filme, como quem já assistiu pode comprovar, tem um impacto muito maior no espectador do que simplesmente o de uma obra cinematográfica. Trata-se de um apurado tratado sobre o que está acontecendo com a gente – como estamos achando que estamos ficando mais próximos quando, na verdade, estamos ficando cada vez mais sós. Raras vezes um filme tem o poder de trazer essa presciência imediata, essa capacidade de falar do momento atual provocando incômodas conclusões sobre o nosso futuro como seres humanos. Esse é o lado mais interessante de “A rede social” que eu queria discutir com você desde vi o filme em Londres. Mas aí veio Zadie Smith e acabou com a minha festa.

Smith é uma das escritoras mais admiradas da literatura contemporânea – e uma das minhas favoritas também. E é dela o artigo que citei acima, que colocou um bloqueio da minha capacidade de escrever mais a fundo sobre o último filme de Fincher. Publicado na edição de 25 de novembro da “New York Review of Books” , o texto começou a me prender logo de início, quando Smith escreve:

“Eu sempre me preocupo achando que minha idéia do que constitui uma pessoa é nostálgica, irracional, imprecisa. Talvez a geração Facebook tenha construído suas mansões virtuais de boa fé, para abrigar as Pessoas 2.0 que elas genuinamente são, e se eu me sinto desconfortável dentro delas é porque ainda sou teimosamente uma Pessoa 1.0. Contudo, quanto mais tempo eu passo com a ponta final da Geração Facebook (sob a forma de meus alunos), mais me convenço de que parte do software que atualmente define essa geração não faz justiça a ela. Eles merecem coisa melhor”.-

Dito isso, Zadie Smith desenvolve o que eu chamaria de – pedindo licença a Win Wenders (!) – “um pequeno tratado sobre o estado das coisas”. Tudo, claro, em cima do filme – que, segundo ela, é uma história “sobre pessoas 2.0 feita por pessoas 1.0 (a evidência número 1 é a própria sequência de abertura, já citada aqui: texto, texto, texto!). A “parábola” da história de Mark (Zuckenberg) é uma triste saga, que já vimos em várias versões: a do cara que só queria ter amigos. Por uma única conjunção de acaso (ou melhor, um fora da namorada), necessidade (ou melhor, carência emocional), talento (ou melhor, habilidade intelectual) e oportunidade (ou melhor, a chance de passar a perna em quem te ofereceu uma oportunidade), a história batida dessa vez produziu algo que iria redesenhar nosso cotidiano e nossas relações – a própria maneira como vivemos hoje.

Mas que vida é essa que o limitado espaço (sim, limitado) desenvolvido por Zuckerberg nos permite usufruir? Uma que Smith prefere não viver, “onde 500 milhões de pessoas conectadas decidem todas assistir a um reality show chamado ‘Bride wars’, porque seus amigos estão fazendo o mesmo”.

Na sua apreciação do filme, a escritora junta ainda observações sobre um livro recém-lançado nos Estados Unidos – “You are not a gadget: a manifesto” (“Você não é a peça de uma máquina: um manifesto”), escrito por um dos visionários da internet, Jaron Larnier. Escreve ele: “No Facebook, como em outras redes sociais virtuais, a vida torna-se um ‘database’, e isso é degradante”. Smith o cita várias vezes no texto, mas a frase de Larnier que resume melhor sua mensagem – que é, claro, contra a padronização dos seres humanos pela internet (e pelas redes sociais) – é essa: “Você tem que ser alguém antes de se compartilhar com os outros”.

Lida assim, meio solta, parece uma tola sentença pinçada de um livro de auto-ajuda. Mas, na sua simplicidade, esse é um pensamento brilhante – que é ainda mais brilhantemente desenvolvido por Zadie Smith. Ela nos lembra, por exemplo, que o Facebook foi desenhado por um universitário de segundo ano, que tem as preocupações de… um universitário de segundo ano! Por que o que nos define na página do perfil é um filme, um livro, uma música, pergunta a autora, e não uma obra de arquitetura, uma ideia, ou uma planta? “Não parece um pouco ridículo”, argumenta ela, “sua vida nesse formato?”.  Os parâmetros que definem quem você é na sua página serão sempre menos interessantes do que todo o conjunto de características que definem quem você é na vida real. E isso é não só enganador, como surreal – não exatamente num sentido positivo…

Para Smith, que só teve dois meses “de vida” no Facebook antes de se desconectar, encontrar, por exemplo, uma mensagem tipo “fofa” – “Fik c os anjuuuus!! LOL!!” – na página de uma adolescente que foi assassinada é mais que constrangedor, é vergonhoso:

“Quando leio uma coisa assim, tenho uma pequena discussão comigo mesma: “É culpa da má educação. Eles sentem o que todo mundo sente, só não têm a linguagem necessária para expressar isso”. Mas outra parte de mim tem um pensamento mais obscuro, mais assustador. Será que eles acreditam, porque a página da garota continua lá, que ela ainda está, de alguma maneira, viva? Que diferença faz, afinal, se todo o contato que existia era virtual”.

Depois desse artigo de Zadie Smith – que é longo, mas cuja leitura eu encorajo fortemente –, minhas dúvidas sobre não ter entrado no Facebook (e similares) até hoje foram inteiramente dissipadas. Se já não me sentia exatamente excluído por não ter a minha página, agora então me sinto um privilegiado por ter teimado em ficar de fora. Até porque, tudo muda… Daqui a mais alguns anos, o próprio Facebook deve ser ultrapassado por uma outra invenção – tomara que mais interessante, em termos de humanidade, do que a de Zuckerberg. E a “ferramenta sem a qual ninguém pode mais viver” será tão lembrada quanto o seu Pager (qual foi a última vez em que você ouviu alguém dizer que ia mandar um “bip”?).

E eu espero que, quando esse dia chegar, alguém faça um filme tão bom sobre essa nova transição quando “A rede social”!

 
Zeca Camargo

 

http://g1.globo.com/platb/zecacamargo/

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